Live Cinema – Primeira Noite
O LiveCinema é um evento que almeja mapear os arredores do Cinema.
Aquele cinema que poderia ter sido, se a opção da indústria não tivesse sido pela tela única, frontal em uma sala escura.
O LiveCinema parte do caminho cinematográfico que os dadaístas e surrealistas praticaram em sua época (enquanto o cinemão era formatado e exportado para o resto do mundo) e que a videoarte recuperou a partir de finais da década de 50.
Hoje em dia, com as tecnologias digitais, este cinema não-convencional tem ganhado força.
Desde o aparecimento e fortalecimento dos VJs no final da década de 90 e início dos anos 2000 somados às instalações que fazem uso intensivo de vídeo, parece possível que surja uma forma alternativa de cinema.
Por tudo isso a Mostra LiveCinema é bem vinda e merece vida longa.
Dito isso, farei uma breve resenha pessoal de cada apresentação que eu assistir.
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Carlos Caldini
Manipulando 3 projetores de super-8 na unha, o argentino apresentou 2 performances.
Na primeira delas, 3 talking heads televisivas se alternam e convivem nas três projeções. Duas mulheres e um homem se alternam com rapidez entre as imagens, sempre enquadrados em formato “telejornal”. Tirando a técnica, não vi muito alí.
Na segunda performance, um tanto mais poética, o artista junta e sobrepõe as imagens dos projetores criando efeitos interessantes.
Girando manualmente o ângulo dos projetores, primeiro sobrepondo duas imagens e depois, as três. Imagens P&B de um gramado recebendo uma imagem colorida de uma flor, por exemplo, entre outras imagens bucólicas.
Apenas mexendo no tamanho e na posição das imagens (pré-preparadas em cada um dos projetores), este trabalho simples atinge efeitos interessantes.
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HOL
Esse trabalho é um que eu encaixo na categoria “tenho uma puta técnica e escrevi um projeto que é uma tese de mestrado, portanto sou um artista fodão”.
Bom, amigo, não é não.
Que bom que você leu Hegel e conseguiu inventar um conceito bacanudo.
Que divertido que você tem uma baita técnica e consegue manipular som e imagem ao mesmo tempo usando essa interface divertida com êmbolos coloridos.
Mas o seu trabalho é chato.
Os primeiros cincos minutos até passam, depois fica só chato e repetitivo.
Se os êmbolos coloridos (ops, não estou usando o nome que os curadores adoram:”interface”) são importantes e fazem parte do trabalho então ponha uma câmera focando neles e jogue a imagem para o telão. Integre sua interface ao trabalho. Do jeito que o trabalho foi montado só quem estava nas primeiras filas consegue ver direito aquilo.
Vivemos uma época em que o sujeito inventa um lápis e é considerado um artista. Pois uma interface, em conceito, é isso: um lápis. Lápis servem para desenhar e não para serem expostos. Você pode expôr um lápis, mas não chame isso de arte, por favor.
Vivemos em uma época em que os críticos estão tão perdidos que nem olham mais os trabalhos, afinal quem quer ver um trabalho passível de erros quando se tem um conceito pronto acabado e redondinho, perfeito?
Deve ser muito comum também curadores, depois de ler o conceito, assistirem o trabalho apoiados nessa muleta. Desse modo não chegam realmente a perceber o trabalho: o conceito basta.
Aliás para que fazer uma noite de performances se o importante é o conceito e a interface? Faça uma instalação e pronto.
Fica a dica pros curadores do próximo LiveCinema.
Sobre a performance de HOL a impressão que eu tenho é que ele tenta justificar toda a parafernália e o conceito bacanudo criados e tenta estender a idéia ao máximo. Pra mim não funcionou.
Próximo.
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Daito Manabe
Enfim um trabalho que se sustenta. Uma obra onde conceito e forma estão conectados de tal forma que o resultado é Arte.
Esta performance desenvolve uma interface original, tem um conceito interessante mas ao invés de se contentar com isso consegue unir conceito/forma/técnica ao criar um trabalho ao mesmo tempo cômico e perturbador.
Lembrando muito as duplas de comediantes japoneses, o artista e seu assistente se apresentam diante do público com inúmeros fios presos ao rosto. São sensores que determinam pequenas interferências na música a partir dos movimentos faciais realizados por eles.
Deste modo, eles vão modulando a música com caretas enquanto ambos os rostos são projetados no telão. Esta é a única imagem do trabalho: ambos ao vivo enquanto fazem caretas para alterar a música que toca.
E no entanto essa simplicidade leva o trabalho à sua potência: a reação no público é imediata.
O trabalho provoca, diverte, questiona (a simbiose homem-máquina e o proclamado corpo obsoleto) e é bem resolvido em sua simplicidade formal.
http://www.daito.ws/#2
Saldo da noite:
Ufa, pelo menos um!
http://www.livecinema.com.br/
NOTA: Esta resenha é composta por impressões sobre a primeira noite do LiveCinema, no Sesc Pompéia em 24 de novembro de 2009.
Não tenho e nem busquei nenhuma informação adicional sobre os artistas além do material que o próprio Festival disponibilizou.
Essa resenha, portanto, trata exclusivamente das obras apresentadas do ponto de vista de alguém que foi lá pra assistir.
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hey Dani, curti muito tua resenha … a parte em que você fala do lápis, conceito, e Arte, na hora, lembrei do Cachimbo do Magritte … apesar de tanto tempo, tem gente que ainda não sacou que isto não é mais um cachimbo …
Erik
novembro 25, 2009 em 4:37 pm
[...] This post was mentioned on Twitter by DanielSeda and daitomanabe, setsuya_kurotaki. setsuya_kurotaki said: fresh ! RT @daitomanabe: ジャパニーズコメディアンと紹介されている。 随分遠いところまで来た。。。 http://bit.ly/6NNfFr [...]
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novembro 25, 2009 em 8:38 pm