Eu Crítico

Minha opinião! Filmes, livros, exposições, peças, etc.

OBJETO FLUTUANTE URBANO

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reflexão pós acontecimento
dentro do http://www.foradeeixo.org/propostas-selecionadas.html

O artesão conta com seu saber de ontem.
O artista tem que se colocar em encrenca todo dia.

Odyr Bernardi
https://twitter.com/odyrbernardi/status/382923727815450624

No caminho da pesquisa em criação é comum surgirem novos interesses a partir de uma experiência bem sucedida. O artista segue sua sensibilidade e sua intuição e escolhe bifurcações muitas vezes com consequências pouco claras. Diante dessas escolhas seu caminho por vezes leva a um beco sem saída e ele é obrigado a rever suas opções. Ou apenas a aceitar que errou e incorporar mais esta experiência ao seu repertório de fracassos.
E o que faz um artista pesquisador quando o projeto não funciona?
Qual o procedimento do artista quando, diante de um trabalho inédito durante uma pesquisa de materiais a obra não acontece do modo idealmente planejado? E o que fazer quando isso se passa durante um festival e essa bela idéia aprovada por uma curadoria que depositou uma confiança supreendente na ação proposta?
Este pequeno texto se propõe a fazer uma reflexão autocrítica sobre uma intervenção idealizada de uma maneira e realizada de outra a meu próprio ver, inferior à expectativa lançada.

O PROJETO

A idéia deste projeto partiu da bem sucedida experiência durante a Virada Cultural 2013, em São Paulo.
Durante 4 meses em 2011 dobrei 1000 passarinhos de origami, o tradicional tsuru. Foram todos dobrados com papéis já impressos com outros fins como folhetos entregues na rua, folders recolhidos em diversas instituições culturais como SESC, Itaucultural, etc.
Era uma performance/ação de médio prazo compartilhada na internet conforme acontecia seu desenvolvimento. A proposta inicial foi apenas realizar um ritual de autotransformação. Eu não tinha nenhuma idéia do que faria quando terminasse de dobrar os 1000 tsurus mas uma vez concluída a performance me veio a idéia de suspender as 1000 dobraduras usando balões de hélio na forma de um dragão flutuante. Esse projeto foi apresentado sem sucesso a algumas instituições como o SESC e a Virada Cultural. O ano de 2012 na cultura chinesa foi o Ano do Dragão e poeticamente fazia sentido realizar o projeto durante esse ano. Isso não aconteceu e o ano findou infrutífero para este projeto.
Em 2013 retomei a idéia pois precisava concluir o processo dos 1000 tsurus e reapresentei o projeto à Virada Cultural de 2013. Tive sorte pois com a troca de administração novamente a Virada Cultural teve verbas para uma exposição de Artes. O trabalho, agora na forma de uma pessoa feita com os 1000 tsurus, foi selecionado pela curadoria e sua apresentação foi bem sucedida. Passeamos, eu, a equipe e a Pessoa de 1000 Tsurus por dois dias em meio à multidão maravilhada com o boneco flutuante.
Esse sucesso me fez ficar empolgado com as possibilidades da combinação origamis + balões de hélio e apresentei ao Festival Fora d@ Eixo uma proposta que nascia diretamente da experiência bem sucedida na Virada.
A proposta agora era suspender uma água viva de origami de um metro e meio de diâmetro com um balão levantando-a por baixo.
O objeto luminoso suspenso flutuaria sobre as pessoas, preso por uma fita, um grande objeto de estimação de origami flutuante passeando ao ar livre.


A PRÁTICA

Na prática o projeto não aconteceu da maneira planejada. Diversos erros de avaliação fizeram com que o trabalho não funcionasse.
Após uma tarde inteira me debatendo com o fracasso iminente tive que alterar o plano proposto ao festival.
No primeiro dia consegui apresentar timidamente um dragão de origami luminoso de quase um metro, suspenso com balões. Este objeto modesto deu um pequeno passeio levado por mim pelo campus quase deserto da UnB, de noite.
No ouitro dia refiz meus planos e me reaproximei da idéia original. Consegui enfim apresentar uma água viva flutuante e luminosa. Porém bem menor, com cerca de setenta centímetros de diâmetro. Ela ficou algumas horas comigo passeando em frente ao Museu Nacional da República no outro dia. Quando anoiteceu e sua luz artificial foi revelada o objeto foi liberado do seu cabresto e seguiu livre pelo céu de Brasília, flutuando e levado pelo vento intenso da Capital Federal.
Porém não fiquei satisfeito com o resultado. Tampouco a curadoria.
Mas houve um momento em que o trabalho poderia ter se encaminhado para o rumo certo. Em algum momento eu poderia ter tomado outras decisões, ainda no primeiro dia. Esse erro custou a credibilidade do projeto e certamente afetou minha reputação como artista junto à curadoria do festival.

O erro técnico que eu cometi foi não calcular que o peso da água viva de origami sobre o balão o faria explodir. Um quilo e meio de papel espalhados sobre um balão e bum. O balão teria que ser mais resistente e maior. Ao invés de tentar suspender com apenas um balão embaixo eu poderia ter, ainda no primeiro dia, feito vários e suspenso por cima mesmo. Teria admitido uma pequena falha porém realizado algo bem próximo o proposto ainda no primeiro dia.
Fiz três águas vivas para o caso de alguma dar errado: duas de papel neutro 80g/m³ e uma de papel vegetal, 40g/cm³, bem mais leve. A de papel vegetal praticamente se desfez, rasgando em vários lugares depois de dobrada, durante o processo de montagem.
A de papel neutro tinha 1,1Kg e explodiu dois balões grandes levando embora quase metade do caro gás hélio comprado para a montagem. Percebi que não conseguiria executar o planejado e a solução no primeiro dia foi modesta.
No segundo dia dIminui o peso cortando o papel da água viva original por quatro e suspendi a nova água viva com 6 balões, por cima. O que até funcionou bem. O que não contribuiu muito foi a imensa quantidade de vento que tem no Distrito Federal e a pouca corda que eu queria usar, para que ele não virasse uma pipa. Queria que ele se tornasse uma espécie de animal de estimação flutuante e surreal.
O vento arrastava o bicho para o chão de tempos em tempos, quando soprava mais forte. Mesmo assim algumas boas imagens foram feitas por mim e deve ter outras melhores feitas pelo Elson, registro em vídeo do festival.

Por outro lado, ainda durante o festival eu pensava cá comigo: não seria também função de um festival de artes e intervenções urbanas apoiar o artista e suas experiências mesmo quando elas se mostram equivocadas? Acreditar na honestidade criativa de um artista e de suas pesquisas? Incentivar seus projetos mesmo quando eles terminam em erros? Pensar mais em termos de valorizar o processo e menos em termos de apenas apreciar o produto?

Talvez o fato da arte brasileira encontrar-se muitas vezes tão intensamente dependente do meio acadêmico e de suas tradicões e critérios científicos crie um ambiente excessivamente viciado nas certezas e muito pouco afeito ao risco.
O risco em arte, quando existe, é apenas o risco esperado: a falha de um equipamento eletro-eletrônico, uma manifestação pública hostil que é incorporada como elemento poético, a intervenção eventualmente violenta do aparato de repressão do Estado em alguma intervenção mais crítica.

Mas e o risco da criação? Este não é legítimo?
Se o artista não tem direito de errar, parem tudo, fechem os Institutos de Arte e renomeiem todos como: Institutos de Criação Científica.
Pois se há alguém que pode errar, este é o artista. O artista, este pesquisador da criação. E a criação, que o diga a própria ciência, nasce da mutação. Ou seja, do erro.

O meu trabalho ficou, admito, medíocre.
Mas o meu erro foi lindo. Pois foi legítimo.
Eu, artista, assumo os riscos das minhas pesquisas.
E agradeço a experiência de erro que o Festival Fora d@ Eixo me proporcionou.

Enfim, foi isso.

Daniel Seda, 2013

Agua viva pequena de origami Agua viva grande de origami dobrada em cima de uma mesa ampla e com baloes de helio brancos flutuando ao fundoAgua viva de origami grande voando com balões de hélio em frente ao Museu Nacional da Republica em Brasilia
Reflexo no vidro da Biblioteca Nacional de uma agua viva de origami grande voando com balões de hélio em frente ao Museu Nacional da Republica em Brasilia

Written by interaubis

outubro 2, 2013 at 9:33 pm

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Reforma Política, algumas idéias

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Escrevo agora para fazer circular uma idéia de REFORMA POLITICA, esta condição básica de retomada da cidadania pelo brasileiro.

Fiz um breve esboço que pode ser resumido no seguinte:

Baseado na sociedade conectada e em rede, os representantes do povo devem ser contratados pelo povo para tocar projetos previamente desenhados por nós!

Eu uso a palavra ‘contratados’ não sem ironia, afinal não é isso o que o capitalismo prega?
Vamos hackear esse conceito e usar a nosso favor!

Reforma Política, algumas idéias

Os cidadãos se reúnem em grupos de trabalhos abertos em ambiente digital e/ou presencial e montam o projeto de governo em cada área.
Estes cidadãos incluem além do cidadão comum interessado os especialistas em cada uma das áreas e os grupos mobilizados que tenham conhecimento de causa em cada área de ação dos problemas a serem enfrentados.

O voto final realizado nestes grupos após o longo processo de redação da proposta é sempre individual, secreto e do cidadão, não de grupos.

O projeto é não apenas conceitual sobre quais os rumos que a cidade/estado/país deve tomar mas também pragmático e com ações específicas.

A eleição serve pra contratar os políticos que irão executar este projeto.

Legislativo: vereadores, deputados e senadores:

O mandato é de 4 anos com um voto de renovação ou de rejeição decisivo ao meio do mandato. Caso perca a cadeira após os dois primeiros anos há nova eleição para aquela vaga.

Direito a uma reeleição, depois tem um período de trégua de 2 anos até poder se candidatar de novo. A idéia é que o político volte a ser povo, e não perca o contato com as ruas como acontece hoje.

Executivo:

4 anos com uma única reeleição e voto de renovação na metade do mandato.

Judiciário

Sei lá, mas tem que haver algum contato, alguma confirmação, alguma influência popular no único poder totalmente desconectado da vontade popular.
No mínimo uma transparência radical das contas de todos os juízes já ajudava bastante.

(sei lá, só pensando alto por enquanto)

E gostaria de ouvir as opiniões de todos a respeito.
Vamos fazer circular idéias novas, senão vai rolar apenas a MESMA VELHA POLITICA DE CONCHAVOS de sempre, vamos virar esse jogo!

ELES TRABALHAM PRA GENTE, e não o contrário!

Políticos tem que ter MEDO da gente. O tempo todo! Medo de perder o emprego, que nem a massa tem. Medo de rejeição. Medo da execração pública!

Quanto aos partidos, eles podem continuar iguais.
São os projetos que irão modelar e dar a cara aos partidos.
Quem sabe assim eles viram partidos de verdade, enfim.

Written by interaubis

junho 22, 2013 at 6:09 am

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Software / Wetware / Freeware / Realware, Rudy Rucker

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Comecei a ler este livro, a Tetralogia de Rudy Rucker, no meu celular antigo um Nokia N97 com leitor de ebook. No terceiro volume, Freeware, eu comprei um celular novo e continuei a leitura do mesmo livro em outro app, outro formato. Depois ganhei um Kindle e terminei finalmente de ler o livro no aparelho da Amazon. Nunca vi nem peguei algum exemplar desse livro impresso, minha leitura dele foi totalmente digital.

De certa maneira essas várias encarnações do mesmo livro em diversos aparelhos reproduzem a trajetória do personagem principal, Cobb Anderson que passa as muitas páginas da complexa aventura terráqueo-lunar-espacial vivendo sucessivamente em vários corpos com seu software originalmente humano atravessando inúmeras incorporações antes de se desmaterializar em ondas.

Cobb é um ser humano, depois um robô (um clone robótico de si mesmo) depois é guardado dentro de uma imensa inteligência artificial, explode a si mesmo, ocupa um corpo robótico provisório, tem seu software guardado em um s-cube por décadas, ressucita em um corpo plástico inteligente, os moldies, robôs de 2050, e depois perde totalmente seu corpo virando apenas vibração de ondas com a codificação do seu software. Este é um dos pontos da saga: o software, a escrita da informação. O software podendo ser atualizado em corpo é de certa maneira imortal. Seria o equivalente da idéia de alma, algo anterior e que sobrevive ao corpo, à encarnação. Pode ser reencarnado.

Mas e a consciência? É a pergunta que todo mundo faria. Um novo exemplar não vai ser outra pessoa, apenas com as suas memórias? De onde vem a consciência, afinal? E Rudy Rucker responde com espiritualidade. A consciência é a mesma. É só você dar start em um ser com as suas memórias que este ser acessará não você que é pequeno mas a consciência, que é única e imortal, advinda da Luz. A mesma que você acessa agora e eu também e todo mundo. (Aqui entra uma longa discussão) Parece conversa de maluco e é isso mesmo e ainda mais com uma gang que come cérebros humanos como se come o de macacos, robôs rebelados na Lua. E depois dizimados pelos humanos quando surge uma nova forma de robôs que herda a memória, o software, da anterior mas agora tem um corpo plástico e remodelável instantaneamente à sua vontade. Basicamente os robôs viram uma massa de modelar capazes em se transformar em qualquer coisa. Se você tem idade pra lembrar disso, um barbapapa. Mas no livro sãos os moldies: um robô feito de algas e fungos e plástico. E software. E o software de Cobb encarna pela última vez em um destes moldies.
Mas a saga de Rudy Rucker investiga não os efeitos da mudança de corpos e de uma potencial imortalidade em um ser humano mas a evolução da parceria simbiótica do ser humano com a inteligência robótica que ele mesmo desenvolveu. O livro explora, além das drogas pros humanos e pros robôs, o sexo entre ambos de diversas maneiras. O robô aqui é a realização de qualquer desejo, o objeto ideal. Uma vez que o robô de plástico pode adquirir qualquer forma ele entra em simbiose com o desejo do humano e se torna o gênio da lâmpada, pode fazer qualquer coisa.

Cobb Anderson cometeu um crime logo no início do século XXI: deu aos robôs a capacidade de evoluir e ganhar livre arbítrio. Substituindo as três leis de Asimov por outras que permitem e até obrigam a evolução constante das IA ele libertou os seres artificiais tornando os robôs não escravos e sim parceiros e com vontade própria. No primeiro volume os robôs fabricam na Lua os clones do órgãos que os humanos precisam para aumentar suas vidas. Há uma cidade na Lua criada e habitada apenas por robôs. Cobb é o responsável indireto por tudo isso e envelhece miseravelmente na Terra até que o primeiro robô criado por Cobb resolve ofecerer a ele a ‘imortalidade’. O que ele não sabe é que há uma guerra entre os grandes computadores que querem clonar e controlar todas as outras IAs e os pequenos boppers que pretendem manter sua individualidade e liberdade. Cobb entra na guerra meio sem querer e seu épico tem início.
Ao longo dos quatro volumes a saga acompanha as intensas aventuras de Cobb este velho cientista derrotado e alcóolatra a quem é dada a imortalidade. Stahn Mooney é o outro pilar do futuro narrado no livro. Um drogadicto, jovem motorista de táxi e filho de um policial que junto com seus descendentes e os de Cobb ao longo das centenas de páginas ajudam a transformar os robôs transformando também sua interação com os humanos neste épico que é originário da primeira safra do universo cyberpunk original.

E eu que nunca tinha ouvido falar em Rudy Rucker o conheci graças a um tweet de William @GrealDismal Gibson celebrando o relançamento da quadrilogia. O primeiro livro é de 1982 e o último do ano 2000. Nestes 18 anos Rucy Rucker criou uma saga perfeitamente possível para os próximos passos de nossa relação com os robôs explorando conceitos como liberdade, consciência, espiritualidade (e os robôs também têm uma religião), robôs, clonagem, biorobôs e drogas, muitas drogas e de todos os tipos. O livro é um delírio de alterações possíveis de consciência com inúmeras drogas humanas e robóticas e seres alucinando sobre a realidade.
Atualmente é tentador, ao menos para mim, enxergar Cobb Anderson no recém contratato pelo Google, Ray Kurzweil. Ele certamente deve ser fã dessa saga que investiga a inevitável existência das inteligências artificiais em convivência conosco.

Mais sobre o livro e download em inglês
More about the book & for donwload PDF
http://www.rudyrucker.com/wares/

Written by interaubis

janeiro 9, 2013 at 10:31 pm

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Toyart Parade

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A Toyart Parade é uma iniciativa solitária de espalhar no dia 15 de dezembro 39 inúmeros toyarts feitos de origami pelo espaço público de São Paulo.

Será finalmente realizada durante o Festival Anhangabaú da Feliz Cidade

Baixo Centro, porque no Baixo Centro estava meio chovendo…

Não, não está inscrita no site do festival, eu tive a idéia depois.

O s toyarts são criações exclusivas do artista Daniel Seda.

Pequeno toyart feito de origami pendurado em uma árvore no Parque da Luz

Veja aqui alguns dos toyarts de papel que serão pendurados por aí, no espaço público.

A Toyart Parade acontece sem nenhum recurso. , e o número de toyarts a serem espalhadas é o número de anos de vida que o artista completa no dia 15

A inspiração é o grafite, a pixação, o uso não autorizado do espaço público a fim de promover a fruição estética e o pensamento crítico.

A Toyart Parade é o uso do pequeno espaço público, do detalhe na cidade.

O objetivo é expôr escultura na cidade ao ar livre agora como arte urbana: sem compromissos, sem galerias, sem permissão.

C ontra o tamanho imenso da metrópole, a pequena epifania das calçadas.

M icro epifania: uma esculturinha móbile suspensa e girando com o vento numa árvore de passagem na calçada.

U ma esculturinha invasora que pode ser facilmente capturada e retirada do espaço público, desviada para dentro de casa.

O espaço público se oferecendo ao espaço privado em um movimento inverso ao dominante em nossa época, onde o espaço público parasita a vida privada.

A Toyart Parade é a utopia de um espaço público que se ofereça gratuitamente para a fruição do público.

Esculturinha de papel triangular branco em frente da obra Craca de Nuno Ramos no Parque da Luz
http://www.vakinha.com.br/VaquinhaP.aspx?e=182712
Contribua com qualquer quantia acima de R$5.
http://www.vakinha.com.br/VaquinhaP.aspx?e=182712
http://www.vakinha.com.br/VaquinhaP.aspx?e=182712

Written by interaubis

dezembro 10, 2012 at 6:59 am

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5 Idéias para o Século XXI

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Esta é uma visão absolutamente pessoal de um futuro possível para a humanidade ainda durante este século.
Esta visão se baseia na mistura de algumas idéias surgidas no contato com autores de ficção científica e de fantasia unidas às muitas informações que encontro sobre pesquisas reais já em curso.

1. Revalorização do corpo, da memória e dos trabalhos manuais
Em um movimento de oposição à crescente cultura protética que inclui desde o Google (como ampliador e organizador de memórias) até os avanços em robótica, existe também um movimento de artistas que propõe a volta da valorização dos trabalhos manuais, do contato com o próprio corpo (body-art, etc).
Ao invés de serem opostas a meu ver as duas coisas se complementam: a ampliação das capacidades biológicas através da tecnologia expõe os limites do corpo. Isso traz de volta os questionamentos sobre os potenciais naturais do corpo e estimula os artistas a retrocederem para estas questões.
Uma questão alimenta a outra e esses dois pólos de questionamento seguem juntos.

2. Fim do lixo
Não existe lixo na natureza. A idéia de lixo nasceu com a civilização urbana e se expandiu principalmente a partir do capitalismo industrial. Assim como surgiu pela voracidade capitalista o lixo será superado por uma cultura da reciclagem total.
Conforme a consciência ecológica se expandir a própria sociedade se encarregará se corrigir este erro que foi a existência do lixo durante o século XX.

3. Invenção da antigravidade
Com a invenção de uma nova substância mais eficiente do que o gás hélio, a antigravidade irá mudar novamente a cara das cidades com a libertação das construções do peso que definiu seus limites até hoje.
O tão previsto carro voador finalmente virá a partir da união desta invenção com motores eletroeletrônicos sem bateria (e mais leves por isso) funcionando com energia sem fio.

4. Desenvolvimemto e aplicação prática de tecnologias alquímicas de criação de matéria a partir “do nada”
(http://g1.globo.com/planeta-bizarro/noticia/2012/09/reacao-quimica-cria-monstro-em-laboratorio.html)
As pesquisas em nanotecnologia e em micromódulos programáveis (por exemplo: http://www.cs.cmu.edu/~claytronics/ ) irão criar um mundo onde os objetos surgirão aparentemente do nada. Os ambientes e móveis serão configuráveis de modo quase instantâneo conforme o desejo e as ncessidades dos usuários.

5. Substituição do dinheiro pela energia
Trabalho é energia aplicada. O dinheiro surgiu como um símbolo do trabalho humano mas acabou por se tornar o seu algoz.
Com o surgimento de tecnologias limpas e eficientes de geração de energia a partir do sol, do vento, dos movimentos das ondas e do corpo a geração de energia se tornará simples e largamente difundida.
As tecnologias de difusão sem fio e o surgimento de uma web da energia, facilmente alimentada pelo público com lógica semelhante à da internet de informação, criarão uma rede energética que irá substituir a necessidade da existência de dinheiro.
A capacidade individual de geração de energia será o novo padrão econômico do mundo.

Esse post possivelmente será incrementado nos próximos dias com links e outras digressões partindo dos pontos citados.

Esse delírio utópico extremamente pessoal acima descrito parte da idéia de que existem a capacidade e a vontade criativas para melhorar o mundo em que vivemos.

Resta saber se as forças econômicas dominantes e a ignorância massificada dispersa no mundo vão deixar isso acontecer a tempo.

Boa sorte pra nós.

Written by interaubis

outubro 1, 2012 at 2:04 pm

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A Vida Antes do Homem

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Nunca tinha lido nada da Margaret Atwood.
Uma vez, muito tempo já faz, eu li uma referência elogiosa (“quer casar comigo?” ou algo do tipo) em uma tirinha do Laerte. Fiquei com o nome e a boa impressão na cabeça, afinal o Laerte, como cartunista canonizado não faria uma referência explícita a qualquer um.

Então o acaso a trouxe para perto de mim: um dia, enquanto me dirigia à estante de literatura nacional na (nova e ótima) Biblioteca São Paulo, um livro dela apareceu na minha frente: A Vida Antes do Homem. Magneticamente o livro colou na minha mão e tive que trazê-lo para casa.

O livro é um fluxo. A história começa logo após um fato decisivo, e termina um pouco antes de outro fato importante acontecer. Ao longo da narrativa sutil, três personagens se alternam narrando suas versões dos fatos. São seres reais, vivos. Pessoas que sorriem bom-dia enquanto borbulham de ódio, mágoa ou indiferença. Pessoas que não sabem bem o que está acontecendo e prosseguem mesmo assim, tentando controlar seu destino enquanto decisões tomados pelos outros mudam o curso de suas vidas. A vida psicológica, as contradições e a complexidade de cada um vão lentamente sendo contruídas através dos capítulos. Ora um narrador onisciente, ora o próprio personagem em seu fluxo de associações e atos e assim um universo físico e psicológico vai sendo montado.
A Tia Muriel (foi daí que você tirou o nome, Laerte?) e sua rigidez moral, desumana, projetando sua sombra sobre a pobre Elisabeth que (em nome das filhas pequenas?) tenta manter seu casamento quase de fachada com Nate, também oprimido por sua mãe idealista (mas no íntimo, desesperada), enquanto este dá os primeiros passos para trocar de amante, conhecendo a delirante e obsessiva paleontóloga que mantém uma relação suficiente mas não totalmente satisfatória com William, cuja violência insuspeitada a empurra em definitivo para seu novo, e não menos insatisfatório, destino.

Uma decisão tomada por uma das personagens irá mudar novamente tudo, mas antes disso, o livro acaba.

Margaret Atwood, quer casar comigo?

serviço:
A Vida Antes do Homem
Margaret Atwood
351 pgs
Editora Rocco

Written by interaubis

junho 17, 2010 at 8:26 am

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Live Cinema – Primeira Noite

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O LiveCinema é um evento que almeja mapear os arredores do Cinema.
Aquele cinema que poderia ter sido, se a opção da indústria não tivesse sido pela tela única, frontal em uma sala escura.
O LiveCinema parte do caminho cinematográfico que os dadaístas e surrealistas praticaram em sua época (enquanto o cinemão era formatado e exportado para o resto do mundo) e que a videoarte recuperou a partir de finais da década de 50.
Hoje em dia, com as tecnologias digitais, este cinema não-convencional tem ganhado força.
Desde o aparecimento e fortalecimento dos VJs no final da década de 90 e início dos anos 2000 somados às instalações que fazem uso intensivo de vídeo, parece possível que surja uma forma alternativa de cinema.
Por tudo isso a Mostra LiveCinema é bem vinda e merece vida longa.

Dito isso, farei uma breve resenha pessoal de cada apresentação que eu assistir.

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Carlos Caldini

Manipulando 3 projetores de super-8 na unha, o argentino apresentou 2 performances.
Na primeira delas, 3 talking heads televisivas se alternam e convivem nas três projeções. Duas mulheres e um homem se alternam com rapidez entre as imagens, sempre enquadrados em formato “telejornal”. Tirando a técnica, não vi muito alí.

Na segunda performance, um tanto mais poética, o artista junta e sobrepõe as imagens dos projetores criando efeitos interessantes.
Girando manualmente o ângulo dos projetores, primeiro sobrepondo duas imagens e depois, as três. Imagens P&B de um gramado recebendo uma imagem colorida de uma flor, por exemplo, entre outras imagens bucólicas.

Apenas mexendo no tamanho e na posição das imagens (pré-preparadas em cada um dos projetores), este trabalho simples atinge efeitos interessantes.

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HOL
Esse trabalho é um que eu encaixo na categoria “tenho uma puta técnica e escrevi um projeto que é uma tese de mestrado, portanto sou um artista fodão”.
Bom, amigo, não é não.
Que bom que você leu Hegel e conseguiu inventar um conceito bacanudo.
Que divertido que você tem uma baita técnica e consegue manipular som e imagem ao mesmo tempo usando essa interface divertida com êmbolos coloridos.
Mas o seu trabalho é chato.
Os primeiros cincos minutos até passam, depois fica só chato e repetitivo.
Se os êmbolos coloridos (ops, não estou usando o nome que os curadores adoram:”interface”) são importantes e fazem parte do trabalho então ponha uma câmera focando neles e jogue a imagem para o telão. Integre sua interface ao trabalho. Do jeito que o trabalho foi montado só quem estava nas primeiras filas consegue ver direito aquilo.
Vivemos uma época em que o sujeito inventa um lápis e é considerado um artista. Pois uma interface, em conceito, é isso: um lápis. Lápis servem para desenhar e não para serem expostos. Você pode expôr um lápis, mas não chame isso de arte, por favor.
Vivemos em uma época em que os críticos estão tão perdidos que nem olham mais os trabalhos, afinal quem quer ver um trabalho passível de erros quando se tem um conceito pronto acabado e redondinho, perfeito?
Deve ser muito comum também curadores, depois de ler o conceito, assistirem o trabalho apoiados nessa muleta. Desse modo não chegam realmente a perceber o trabalho: o conceito basta.

Aliás para que fazer uma noite de performances se o importante é o conceito e a interface? Faça uma instalação e pronto.
Fica a dica pros curadores do próximo LiveCinema.

Sobre a performance de HOL a impressão que eu tenho é que ele tenta justificar toda a parafernália e o conceito bacanudo criados e tenta estender a idéia ao máximo. Pra mim não funcionou.
Próximo.

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Daito Manabe
Enfim um trabalho que se sustenta. Uma obra onde conceito e forma estão conectados de tal forma que o resultado é Arte.
Esta performance desenvolve uma interface original, tem um conceito interessante mas ao invés de se contentar com isso consegue unir conceito/forma/técnica ao criar um trabalho ao mesmo tempo cômico e perturbador.
Lembrando muito as duplas de comediantes japoneses, o artista e seu assistente se apresentam diante do público com inúmeros fios presos ao rosto. São sensores que determinam pequenas interferências na música a partir dos movimentos faciais realizados por eles.
Deste modo, eles vão modulando a música com caretas enquanto ambos os rostos são projetados no telão. Esta é a única imagem do trabalho: ambos ao vivo enquanto fazem caretas para alterar a música que toca.
E no entanto essa simplicidade leva o trabalho à sua potência: a reação no público é imediata.
O trabalho provoca, diverte, questiona (a simbiose homem-máquina e o proclamado corpo obsoleto) e é bem resolvido em sua simplicidade formal.

Aqui o site do artista

http://www.daito.ws/#2

Saldo da noite:
Ufa, pelo menos um!

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http://www.livecinema.com.br/

NOTA: Esta resenha é composta por impressões sobre a primeira noite do LiveCinema, no Sesc Pompéia em 24 de novembro de 2009.
Não tenho e nem busquei nenhuma informação adicional sobre os artistas além do material que o próprio Festival disponibilizou.
Essa resenha, portanto, trata exclusivamente das obras apresentadas do ponto de vista de alguém que foi lá pra assistir.

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Written by interaubis

novembro 25, 2009 at 4:04 pm

Publicado em cinema

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